Voz Missionária

À sombra do salgueiro, das lamentações à cura

O salmo 137, dentre os salmos do gênero de lamentação, é um dos mais fortes e doloridos. Se a gente fechasse os olhos por um momento e se imaginássemos a cena, poderíamos usar como recurso visual o cenário descrito por Ezequiel, no primeiro capítulo do seu livro. De repente, um grupo de exilados e exiladas está diante do rio Quebar, atônitos e perplexos, meio que paralisados diante de toda a perspectiva de um futuro nebuloso.

A sensação de ter sido arrancado de seu lugar é tão profunda e atordoante que o livro começa de repente: “E aconteceu no trigésimo ano, no quarto mês, no quinto dia do mês, que estando eu no meio dos cativos, junto ao rio Quebar...” (Ezequiel 1.1). Aconteceu, tanto o exílio quanto, no meio dele, a visão de Deus.

Este fato havia roubado Ezequiel, inclusive, do exercício de seu sacerdócio no templo. Ele estava fora de seu lugar de consagração, do seu lugar de exercício de seu ministério. Como poderia haver um sacerdote sem um templo, marca fundante desde a construção do esperado prédio, sob Salomão? Era um tempo de redescobrir-se. Geralmente, as visões eram dadas aos profetas, mas este sacerdote sem indumentárias vê Deus à beira do rio: seu ministério está em transformação, assim como a vida do seu povo. Enquanto as visões de Ezequiel parecem ter um aspecto didático, com Deus preocupado em demonstrar como o pecado de Israel o trouxe àquela fatídica situação e como sua esperança pode ser fortalecida neste tempo, o salmo 137 traz outro olhar sobre o tema. São pessoas diferentes experimentando o mesmo contexto. Como elas reagem e como atuam em sua fé a partir deste tempo tão difícil?

Cantar em tempos de dor
Uma vez, eu visitei uma sinagoga em São Paulo, no meu tempo de estudante. Nunca tinha ouvido um canto em hebraico. O rabino entoou um salmo de lamentação antes de fazerem uma oração em memória de pessoas falecidas da comunidade, como é de costume deles. Foi uma experiência única, porque me fez imergir numa cultura e num tempo kairós, um tempo de Deus, como se o passado batesse na porta da gente e nos apresentasse um universo paralelo. Fiquei olhando tudo aquilo, a comunidade balançando a cabeça, os olhos fechados em reflexão. A Torá sendo trazida e apresentada à comunidade... havia muita dor, porque a lista dos falecidos e falecidas era enorme. Mas havia ternura, beleza e, por isso, consolo.

Os salmos de lamentação têm o poder de transformar a dureza e sequidão da vida em motivo de beleza. E se existe um poder na beleza é que ela nos leva à contemplação. A contemplação é um estado curador. A gente vê uma coisa bonita e aquilo, ao ser contemplado, vai enchendo os olhos, enchendo a mente, enchendo o coração e quando menos a gente vê, estamos em um estado de transbordamento. O que transborda transforma, porque é no transbordamento que a gente sai de si mesmo e vai ao encontro da outra pessoa. Na escassez não existe espaço de partilha. Somente um espírito de abundância consegue repartir. E o engraçado, que a gente esquece, é que a abundância não quer dizer que está sobrando. Quer dizer que há suficiência. E quando existe partilha, sempre há suficiência, mesmo que algo ainda falte. A gente preenche com presença, com amor. Assim é um salmo de lamentação.

Negar-se a cantar: o problema do Salmo 137
Talvez por isso, por negar-se ao canto, o salmista do Salmo 137 seja tão distinto dos demais. É uma teoria minha, é claro, e está aberta a qualquer contradição. É minha imaginação de estudante de salmos. Porque em boa parte deles, mesmo quando em muita dor, o salmista promete uma canção futura, quando as coisas melhorarem. Ele sabe que nem toda música é feita de tons menores e que é possível novas harmonias. Mas os orantes do Salmo 137 recusaram-se a cantar. A dor que não é cantada enraíza em ira. Deixa de liberar e liberar...

Às margens dos rios da Babilônia nos sentamos e choramos, lembrando de Sião. Há lembranças que inspiram e lembranças que paralisam. Há pessoas que sofrem traumas e se tornam mais fortes. Há outras que não conseguem mais se libertar das dores de seu passado.

Uma parte disso é nossa estrutura emocional, uma parte disso é fé, uma parte disso é como olhamos a vida, outra ainda é quanto apoio e respaldo recebemos para ver de modo distinto. Quando algumas dessas coisas se desequilibra demais, podemos entrar numa doença emocional que devasta e amarga. John Bevere, no livro A isca de Satanás, menciona que “Amargura é a vingança não realizada. Ela é produzida quando a vingança não é satisfeita no nível que desejamos”.



"Onde formos, nosso Deus irá conosco. E onde Ele está, é casa. É céu. Te louvarei, não importam as circunstâncias. Minha harpa não será pendurada. O salgueiro não é de morte. O salgueiro sou eu, sob o Espírito derramado. Eu creio. Eu canto, mesmo que chore. E espero, porque Ele vem!"


Os israelitas tinham razão de sentir raiva de Babilônia. O exílio era cruel, a queimada de Jerusalém e a destruição do templo eram rasgos na alma. Mas a amargura os fez deixar de louvar a Deus! Eles se concentraram em si mesmos e esqueceram do Deus que muitas vezes antes tinha agido em libertação. Eles também haviam posto de lado seus erros e culpado a terceiros por toda a aflição sofrida. É fácil morder a isca da ofensa quando falta um senso de identidade, de arrependimento e de perdão.

Penduramos nossas harpas nos salgueiros quando nossos opressores nos pediam canções: o salgueiro é uma árvore cheia de simbologias interessantes. Ele está presente em Levítico 23.40 como um dos ramos da festa dos tabernáculos. Do ponto de vista da botânica, é uma árvore que só cresce perto de lugares úmidos. Tem a capacidade de limpar a água e o ar. Possui qualidades terapêuticas. Ao mesmo tempo, em várias mitologias, como a chinesa e a romana, aparece associada à morte, ao lamento e à tristeza. Podia ser vista como um tipo de mau agouro.

Pense nisso por um momento apenas: pendurar nossos instrumentos de louvor nos galhos da morte! Que coisa tenebrosa! Podemos tomar esta acepção para pensar: a recusa ao louvor atesta o tamanho da amargura e da ofensa que aquele povo carregava dentro de si. Ao recusar-se ao louvor, eles estavam dizendo que seus opressores eram mais fortes do que seu Deus. Quantas vezes eu não me pego fazendo isso? Pendurando minha harpa nos galhos da autocomiseração, do medo? Retendo meu canto para não “dar o gostinho aos meus inimigos”?

Estarei eu me esquecendo que “no meio dos louvores Deus habita” ou que foi por meio de canções que muitas guerras de Israel foram vencidas? Que ao soar de uma harpa um espírito mau saiu de Saul? Que o louvor de Paulo e Silas causou um terremoto? Harpas penduradas nos galhos do mau agouro não podem livrar. Só aprofundam as doenças da alma da gente, ao ponto de fazermos o improvável, a automaldição: “Que a minha mão me resseque!”. Mas cantar fora de Jerusalém não é esquecê-la, mas fazê-la presente! É um ato de resistência e de fé!

Feliz quem te fizer o mal, quem esmagar seus bebês contra a rocha: Ah, o efeito curador da lamentação, retido pela falta da canção, resultou num povo amargo, disposto a sacrificar crianças por sua ira. Podemos entender todo o contexto histórico, mas se nos limitarmos aos contextos históricos, daremos permissão a todo tipo de distorção dos valores éticos, morais e espirituais de um povo. Precisamos ir além e andar por fé. Isaías 43.3, por exemplo, ressignifica o salgueiro e o coloca na perspectiva salvífica: “Porque derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade, e a minha bênção sobre os teus descendentes. E brotarão como a erva, como salgueiros junto aos ribeiros das águas”. Sim, porque existe este outro lado: perto das águas o salgueiro é uma planta imensa, viçosa, visível de longe, que cresce e ocupa as margens todas. Quando Deus quer, até aquilo que era símbolo de morte vira vida. Mas isso depende de nos esvaziarmos de toda a amargura para nos enchermos deste Espírito que é derramado, porque o sedento e a terra seca só param de beber quando estão saciados!

Retomando a canção
Ezequiel, o profeta do exílio, não viu as portas reerguidas. Não voltou para casa. Mas ele teve uma visão. Muitas, na verdade. Na última delas, ele viu uma cidade. Era uma cidade de memórias, de presenças vivas, de portas novas, cheias de medidas grandes. A cidade se chamava: “Deus está aqui”. Não era uma visão de pessoas estagnadas à beira de rios, contemplando harpas penduradas em galhos de morte, ruminando amarguras e desejos de vingança, recusando-se ao louvor e diminuindo a glória de Deus.

Era uma visão de libertação, de aconchego, de restauro e presença. Não era mais “casa da paz” (Jerusalém), mas “casa de Deus”. Deus está aqui, mesmo que Jerusalém não esteja. Deus está aqui, mesmo que o templo não esteja. Deus está aqui porque a visão Dele está aqui e a presença Dele está aqui. E se Deus está, o que pode faltar? Os opressores pensam que nos oprimem quando nos pedem canções. Eles não sabem de nada. Cantamos, não porque eles pedem, mas porque em nós reside esta esperança. Onde formos, nosso Deus irá conosco. E onde Ele está, é casa. É céu. Te louvarei, não importam as circunstâncias. Minha harpa não será pendurada. O salgueiro não é de morte. O salgueiro sou eu, sob o Espírito derramado. Eu creio. Eu canto, mesmo que chore. E espero, porque Ele vem!


Bispa Hideide Brito Torres
8ª Região Eclesiástica (MT, DF, TO e GO)