Voz Missionária

Além do limite

Sobrecarregadas pelas mudanças impostas pela pandemia, muitas pessoas estão desenvolvendo quadros de esgotamento mental


Não está fácil para ninguém. A pandemia foi decretada em março de 2020 e, desde então, os tempos são de mudanças, incertezas e desafios para se enquadrar ao chamado novo normal. Muita gente tem conseguido se adaptar bem, porém, não são poucos também os casos de esgotamento mental, deflagrados por conta do distanciamento social, da sobrecarga de trabalho no regime de home office, de problemas financeiros ou por tudo isso junto e misturado. O quadro pode ter origem física ou emocional, e uma pode ser a causa da outra: o cansaço físico pode levar ao desgaste emocional e vice-versa.

É que o corpo e a mente precisam de cuidado e descanso e, quando isso não acontece na medida necessária, outras doenças podem surgir, entre as quais a hipertensão arterial, arritmia cardíaca, infarto, gastrite, úlcera, ansiedade, síndrome do pânico e depressão. Segundo Fernanda Piotto Frallonardo, psiquiatra da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), o esgotamento mental está relacionado a um padrão de personalidade perfeccionista e cobradora.

“São pessoas que não aceitam o erro e tendem a se cobrar além do normal”, analisa. O quadro, chamado antigamente de estafa mental, caracteriza-se pela sensação de que a pessoa passou do ponto, como aqueles maratonistas que caem porque foram além do que o corpo podia dar, segundo exemplifica a especialista. A mudança imposta pelo confinamento pode contribuir para a piora do quadro, como mais um elemento de cobrança. “Entretanto, o que percebo é a própria dinâmica do paciente como gatilho para o esgotamento”, destaca.

Atenção às causas

De acordo com Maria Regina Domingues de Azevedo, psicóloga e professora da FMABC, o esgotamento mental quase sempre ocorre associado a sintomas físicos. As razões para o problema são diversas e variam muito de um indivíduo para outro, pois o que pode ser estressante para uma pessoa pode ser perfeitamente administrável por outra. “Mas um longo período de estresse constante seja por questões pessoais, profissionais ou sociais, pode deflagrar o quadro”, pontua a profissional.

Quando associado à sobrecarga no trabalho, que leva a níveis extremamente elevados de ansiedade e estresse, o distúrbio é conhecido como Síndrome de Burnout, embora todos estejam sujeitos a passar por momentos de esgotamento emocional, independentemente de questões laborais. Situações particularmente estressantes na vida podem ser gatilhos para o problema, como a própria pandemia da Covid-19, que para algumas pessoas gerou mudanças muito bruscas e se tornou uma fonte de estresse e angústia difícil de administrar.

Apesar da grande variedade de fatores que podem levar ao esgotamento mental, um sentimento é bastante comum: o da entrega constante e até mesmo excessiva no trabalho ou nas tarefas diárias. Ao mesmo tempo, a sensação é a de não receber nada em troca que possa equilibrar o saldo, e as tarefas são desenvolvidas no modo automático, sem prazer real na realização. Uma constante nesses casos, segundo a psicóloga, são pacientes que não conseguem descansar e relaxar o suficiente, não têm tempo de qualidade para si próprios e consideram não receber atenção, carinho e compreensão suficientes das pessoas que os rodeiam. “Na prática é como se eles extraíssem toda a energia do emocional, mas sem se preocupar ou sem ter maneiras de repor tal perda”, observa.

Outra situação que pode desencadear o problema são as muitas ou bruscas mudanças em curto espaço de tempo. Em função da brevidade dos acontecimentos, o indivíduo pode não consegui gerenciar de forma adequada e acaba sobrecarregado. O diagnóstico nem sempre é fácil, já que muitas vezes o paciente apresenta um quadro de fadiga em conjunto com outros sintomas pouco claros.

Contudo os sinais mais importantes costumam ser a irritabilidade, perda de energia, insônia, incapacidade de desfrutar dos pequenos prazeres da vida, perda de motivação, falhas na memória, pensamento lento, instabilidade de humor e sintomas físicos diversos e constantes.

Virada de jogo
Quem sofre de esgotamento mental deve procurar ajuda ao primeiro sintoma que apresentar, inclusive na ocorrência de dores inexplicáveis. Manter uma rotina é importante, porém, mais do que isso é preciso estabelecer os próprios limites e respeitá-los. A psicoterapia é recomendada e, por vezes, algumas medicações específicas para alívio de sintomas ansiosos e depressivos que podem acometer o indivíduo esgotado mentalmente. “Exercícios de meditação e contemplação podem ajudar a restabelecer o eixo mental, mas precisam de técnica e supervisão”, adverte a psiquiatra Fernanda Frallonardo.

A psicóloga Maria Regina Azevedo alerta para a importância de não esperar o leite derramar para apagar o fogo. “Aos primeiros sinais de que algo está diferente no seu comportamento, no seu estado de ânimo ou na sua disposição física, procure ajuda do médico, do psicólogo ou de outro profissional da saúde em que você confia”, sugere.

Atividade física, yoga, relaxamento, dança e exercícios que estimulam o corpo são bem-vindos. Além disso, pode ser a hora certa para experimentar atividades e experiências que nunca sequer foram imaginadas, como pintar, bordar, fazer tricô, crochê, trabalhos manuais, artesanato em geral, marcenaria, entre tantas outras: “Por que não mudar a cor da parede da sala? Mudar a disposição dos móveis? Arrumar gavetas, armários, guarda-roupas? Customizar camisetas e outras peças de roupas esquecidas? Ocupar-se de algo novo que seja prazeroso tem sempre resultados positivos”, aconselha a psicóloga da FMABC.

À flor da pele
A rotina estressante de Rafael de Almeida, de São Bernardo do Campo, é exemplo da rotina vivenciada por muitos profissionais desde o início da pandemia. Ele trabalha como gerente administrativo e tem sentido na pele as dificuldades do excesso de afazeres. “No início, tudo era muito incerto e o clima ficou pesado. A empresa adotou a jornada de home office, o que ajudou a diminuir a tensão e o medo da contaminação. Mas o dia a dia ficou bastante pesado no sentido emocional”, conta. Com o passar do tempo, o medo da contaminação foi dando lugar ao esgotamento físico e emocional. O gerente, que nunca havia trabalhado 100% de casa, diz que tem sido uma experiência diferente, ainda mais com as escolas fechadas e a família toda em casa. “Junta tudo, o trabalho, as confusões normais do cotidiano, a necessidade de dar atenção aos filhos, enfim, é uma pressão muito grande”, comenta. Rafael passou a acordar mais cedo, a parar mais tarde e a adiantar coisas do trabalho aos sábados. “Tem dias em que o físico e principalmente o emocional chegam à exaustão”, admite.


Nascimento Jr.
Extraído da Revista Coop – Ano XL, nº 441/104 - Novembro de 2020