Voz Missionária

Doenças crônicas - controle contínuo

Mais da metade dos brasileiros acima de 18 anos recebeu diagnóstico de doença crônica
Doenças crônicas não transmissíveis (DCTN). O nome parece complicado, mas engloba enfermidades bastante conhecidas e prevalentes na população. Diabetes, câncer, depressão, obesidade e pressão alta são algumas das doenças que integram essa lista e que foram diagnosticadas em boa parte da população brasileira. Na ponta do lápis, 53% dos indivíduos de 18 anos ou mais informaram que receberam diagnóstico de pelo menos uma doença crônica em 2019. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, divulgada em novembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No início do século passado, as doenças infecciosas eram as que mais levavam a óbito; porém, com a melhora das condições socioeconômicas e culturais, houve uma transição epidemiológica, com mudança do padrão de mortalidade que afeta a população. Com isso, as DCNTs passaram a figurar entre as principais causas de mortes prematuras em boa parte dos países, incluindo o Brasil.

As doenças crônicas são aquelas cujos sintomas demoram a aparecer e apresentam um curso mais lento do que o das doenças chamadas agudas, que ocorrem repentinamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera as DCNTs um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, responsáveis pela perda de qualidade de vida, aparecimento de incapacidades e elevados custos econômicos para a sociedade e para os sistemas de saúde. A maioria dos óbitos é atribuída a doenças do aparelho circulatório, câncer, diabetes e doenças respiratórias crônicas.

As causas costumam ser complexas e envolvem tanto fatores de risco não modificáveis como genética, sexo e idade, como modificáveis, entre os quais, tabagismo, inatividade física, alimentação não saudável e consumo excessivo de bebidas alcoólicas – esses últimos, em função da relação com modos e estilos de vida, são passíveis de modificação.

Pesquisa Nacional
Segundo a pesquisa do IBGE, a hipertensão arterial lidera a lista de doenças crônicas. Com 23,9% de incidência, o que representa 38,1 milhões de pessoa. Outro dado impressionante está na área de saúde mental: o Brasil tem 16,3 milhões de pessoas diagnosticadas com depressão. Foi estimado que 10,2% das pessoas de 18 anos ou mais de idade receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental contra 7,6% em 2013. Colesterol alto (14,6%), diabetes (7,7%) e doenças do coração (5,3%) também aparecem no topo da lista do estudo, realizado em parceria com o Ministério da Saúde.

O médico urologista Mário Henrique Elias de Mattos, da Faculdade de Medicina do ABC e do Hospital do Coração de São Paulo (HCor), considera importante manter o monitoramento das doenças crônicas para implementar com agilidade eventuais ajustes comportamentais ou de medicamentos, minimizando os riscos à saúde dos pacientes. “Nesse sentido, o acompanhamento médico periódico e os exames de rotina são essenciais, pois nem sempre o paciente perceberá sinais de alerta muito evidentes caso sua doença crônica mude de características ou saia da faixa adequada de controle”, alerta.

Relaxamento na pandemia
Diante da pandemia da Covid-19, muitos pacientes tiveram desmarcadas consultas de rotina, exames e até mesmo cirurgias eletivas (aquelas que não são de urgência).

Por outro lado, alguns optaram por deixar para depois os cuidados com a saúde, com medo de ser infectados ao sair do isolamento. O grande problema é que doentes crônicos geralmente necessitam de acompanhamento permanente. Entretanto, ao longo de 2020, até mesmo pacientes com câncer tiveram sua assistência afetada.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o comportamento dos pacientes mudou visivelmente na quarentena, com quedas expressivas nos exames de rastreamento de câncer. Em abril, por exemplo, a taxa de ausência no segmento foi em torno de 50% no sistema privado e acredita-se que tenha sido ainda maior no Sus.

A SBOC alerta que esse atraso pode levar ao diagnóstico tardio de diferentes tipos de câncer, com possíveis impactos nos tratamentos. É fundamental não desprezar sintomas que fujam da normalidade, como dores, inchaços, nódulos, manchas, perda de peso inesperada, dificuldade na cicatrização de feridas e presença de sangue nas fezes ou na urina. Independentemente da quarentena, esses são sinais indicativos de que algo pode estar errado, e um médico deve ser consultado para uma avaliação adequada e exames diagnósticos e preventivos.

Dores da pandemia
No ano passado, a Pesquisa Nacional de Saúde registrou que 21,6% dos brasileiros (34,3 milhões) relataram problema crônico de coluna. Em 2013, eram 18,5%. Para a próxima PNS, a tendência é de que o número seja ainda maior. Isso porque a pandemia e o isolamento social aumentaram muito o tempo das pessoas em casa, especialmente diante da TV e das telas de celular. Em paralelo, um grande número de trabalhadores foi deslocado para o sistema home office, nem sempre dispondo de mesas, cadeiras e demais condições adequadas para exercer suas funções em casa sem prejuízos à saúde.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), entre 65% e 80% da população mundial desenvolve dor na coluna em alguma etapa da vida, sendo a lombalgia a segunda causa mais comum de consultas médicas gerais, atrás apenas do resfriado. “A dor lombar está entre as principais causas de incapacidade no mundo, e infelizmente os casos aumentaram muito com a pandemia”, revela a médica reumatologista Anna Maura Fernandes.

Do total de casos de dor lombar, cerca de 5% não melhoram de forma espontânea e evoluem para doença crônica. “O mais importante é saber que sentir dor não é algo normal e que não devemos simplesmente aceitar isso de modo passivo. Existem muitos tratamentos e medicamentos disponíveis. Sessões de fisioterapia e de reeducação e postura global RPG também podem ajudar, assim como outros recursos terapêuticos”, enumera a reumatologista.

Desligue o celular
Outro problema comum e que aumentou desde o início da quarentena é a cervicalgia – ou seja, a dor na região do pescoço. “Nesse caso, sem dúvida o grande vilão é o celular”, afirma Fernandes. Com o distanciamento social, tanto crianças quanto adultos têm passado muito mais tempo diante das telas dos smartphones, para jogos, filmes notícias, entretenimento, redes sociais ou mesmo para atividades laborais a distância.

Quando o pescoço está flexionado para baixo para olhar para o celular, a pressão sobre a coluna cervical aumenta muito, causando sobrecarga nas articulações. Quanto maior o ângulo incorreto de curvatura do pescoço, maior a pressão. Juntamente às dores na região dos ombros e do pescoço podem ocorrer outros sintomas, como tensão muscular, dores nas costas e desconforto nos braços e punhos. Com o passar do tempo, sem acompanhamento e tratamento adequados, esses sintomas podem evoluir para complicações, como a osteoartrose e a hérnia de disco.

“Uma das medidas preventivas é a imposição de limites para utilização de equipamentos eletrônicos, principalmente o smartphone, evitando seu uso por tempo prolongado por crianças e adolescentes. Pausas de pelo menos 10 minutos a cada hora também contribuem para minimizar as dores na coluna cervical, assim como alongamento ao longo do dia”, aconselha a reumatologista Anna Maura Fernandes.


Nascimento Jr
Extraído da Revista Coop - Ano XL nº 443/106 - Janeiro de 2021


Consultoria
Anna Maura Fernandes, médica reumatologista do Hospital Estadual Mário Covas e pesquisadora do Centro Muldisciplinar de Estudos Clínicos (Cemec).
Mário Henrique Elias de Mattos, médico urologista do Centro Universitário Saúde ABC/Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) e do Hospital do Coração de São Paulo (HCor).
Agência Brasil.
Ministério da Saúde.
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).