Voz Missionária

Harpas e salgueiros

Há uma ligação muito forte, registrada nas Escrituras, entre salgueiros e harpas. É importante aprender com seus significados: as lições são profundas, vão ajudar nos aprimoramentos edificantes.

A harpa é um dos mais antigos instrumentos de corda. Suas origens nos remetem ao Oriente Médio e Egito. O salgueiro, muito utilizado na Festa dos Tabernáculos, tinha seus frutos recolhidos de “árvores formosas”, conforme nos relata Levítico 23.40.

Entre elas, estavam os salgueiros das ribeiras, de formas brancas e prateadas. Um dos tipos de salgueiro é conhecido entre nós como “chorão”, cujos ramos servem para produzir vimes, fabricar cestos e mobiliário artesanal. Além disso, o casco do tronco do salgueiro pode ser usado para fabricar aspirina. Também detém propriedades para conter hemorragia. Crescia e frutificava à beira de riachos e rios, como o Eufrates.

A harpa: o rei Saul, dominado por seus tormentos, pedia a Davi para tocá-la e assim acalmá-lo. Sentia ciúmes doentios do filho Jônatas, por sua vez grande amigo de Davi, e - desobediente a Deus - perdeu a batalha para os filisteus. Suicidou-se (1 Samuel 31.4).

Um pouco mais de salgueiros: capturado pela Babilônia, o povo de Deus foi levado para às beiras dos rios, onde os inimigos esperavam vê-lo entoando seus belos cânticos, apesar da tristeza e das saudades narradas nos Salmos 137.2, motivo pelo qual, desolados e chorosos, penduraram suas harpas nas árvores.

Este foi um doloroso momento que nos faz observar o que está acontecendo conosco hoje - isolados socialmente, usando máscaras, tomando vacinas, perdendo entes queridos, sofrendo com as dores e infecções, entubações, angústias e ansiedades, suplicando e esperando, testando a nossa fé diante de tantas tribulações.

O poeta Gonçalves Dias escreveu um poema - Canção do Exílio - para expressar as saudades que sentia da sua terra, a nossa terra, que “tem palmeiras onde canta o sabiá...”. Um salmista (não sabemos quem foi), coração ferido, provavelmente remanescente daquela tragédia, escreveu com lágrimas e alma repleta de recordações, a dor de ser levado de Israel para a Babilônia. Não havia o que cantar diante da tristeza do templo de Jerusalém destruído, o altar profanado, as ruas sem ninguém, os lares vazios, os campos devastados e ele, o povo, tocado como gado para o cativeiro.

Nossa Babilônia - Assim estamos nós. A morte espreita, ronda e ataca, nossa fragilidade se torna patente, não sabemos o que fazer e perdas irreparáveis nos fazem ficar desolados. Nunca vivemos algo assim. Tentamos interpretar como flagelo ou castigo, vendo - de qualquer modo - que precisamos ser mais humildes e solidários; que “próximo” é uma palavra que fica muito mais perto do que se pensava e que temos de nos unir para não perecer. Algo estranho para nossos hábitos presenciais, familiarizados com aquilo que dispúnhamos e não prestávamos muita atenção, como o beijo, o abraço, a convivência, a acolhida, o sorriso, o olho no olho, o carinho e o afeto nos gestos, o amor circulando no ar, o sabor de mel que as palavras podem transmitir, a alegria de estar na Casa do Senhor. Sentimentos e sensações únicas proporcionadas pela interação com a nossa comunidade de fé.

Que falta faz tudo isso... quantas saudades! Mesmo inconscientemente, penduramos nossas harpas nos salgueiros, inconformados diante dessa moderna Babilônia, agora chamada Covid-19, que nos afasta com nefasta pandemia dos lugares que gostaríamos de frequentar.

Agora e aqui, podemos sentir saudades do templo, mas pensando em Deus, sempre perto de quem está disposto a buscá-Lo. Ele não fica só em Jerusalém, está na Babilônia também. Contempla os seres livres ou dominados. Mesmo isolados, fragilizados, podemos cantar e expressar nossa fé, amor e gratidão. Confiar. Esperança. Fé, pequena grande palavra. Acreditar. Ter plena certeza do que nem se vê. Na Babilônia, não havia motivos aparentes para canções. O poeta russo Maiakovski escreveu que é preciso conquistar a vida para cantá-la em seguida.


Mesmo inconscientemente, penduramos nossas harpas nos salgueiros, inconformados diante dessa moderna Babilônia, agora chamada Covid-19, que nos afasta com nefasta pandemia dos lugares que gostaríamos de frequentar.

La Fontaine apresentou a fábula da cigarra, cantante, colhendo o que plantou, e da formiga, previdente e trabalhadora. O padre António Vieira, num dos seus sermões, convida ao que chama de “homem triste”: se a tristeza ainda não te tirou o uso da razão, pergunta-te a ti mesmo para onde vais, quo vadis?: “esta consideração, em qualquer caso ou estado de vida, por triste que seja, não só te servirá de consolação, de alívio e de remédio, mas te livrará para sempre de toda a tristeza”.

Nas tribulações, mesmo no barco diante da violenta tempestade, Deus sempre está conosco. Paulo, na carta endereçada aos romanos (5.3,4), nos dá vigorosa lição a respeito:... também nos gloriemos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Diga a quem está perto o que você já atravessou, sentiu e colheu diante da experiência com tribulação. Faça conhecer, como testemunho, a divina força redentora. Conheça a quem, mesmo sendo servo do Senhor, passou por situações desafiadoras e saiu triunfante, confiante nas suas próprias preces e também sendo beneficiado pelas orações dirigidas ao Senhor a seu favor. Aprenda, com essas pessoas, que você pode declamar vigorosamente, na primeira pessoa do singular, o Salmo 23: o Senhor é o meu pastor, nada me falta! Em verdes prados faz-me repousar. Refaz minha alma em sua fonte fresca, em seu seguro aprisco me coloca. Se passo no vale escuro, não temo, pois Ele está comigo e me dá forças. Seu nome me conduz por bom caminho. Sigo tranquilo sob o seu cajado...

Prossiga, como você quiser, preferir, inspirar-se ou sentir o desfrute da presença inefável do Bom Pastor na sua vida.

A força da fé - Atravessar o Mar Vermelho parecia uma tarefa impossível, ainda mais com o Faraó e seu exército no encalço. Mas o Senhor foi claro com Moisés: “dize aos filhos de Israel que marchem” (Êxodo 14.15). Em frente! Aquela não parecia uma rota de fuga numa avaliação sensata, mas fora das estratégias humanas um forte vento oriental soprou toda a noite, as rodas dos carros das tropas (Êxodo 14.21 e 25) ficaram emperradas e cavalos e cavalarianos foram tragados pelo mar (Êxodo 14.25 e 28). O vírus da morte é invisível, mas deixa um rastro de mortes, sequelas, sepulturas, cremações, aflição, dor e saudade. Não escolhe classes sociais. Não é excludente na ceifa implacável. Somos todos iguais - quem diria, amarga lição, que já nos foi ensinada pelo Senhor.

Diz Krishinamurti, o filósofo indiano, que só temos medo daquilo que não conhecemos, sobre o que não temos domínio. De fato, o povo de Israel teve a impressão inicial de que Moisés estava lhes fazendo proposta de uma aventura irresponsável. Sentiu medo e murmurou (Êxodo 16.2,3) e Deus lhes mostrou que era Ele quem comandava aquela empreitada aparentemente suicida. O vírus perseguidor causa estragos, mas o Senhor está sempre conosco. Há adversários, mas existem forças do bem, pelas quais o Senhor age, fazendo coisas inacreditáveis. Você sabe. Eu sei. Se apenas devemos temer o desconhecido, como diz Krishinamurti, mas sabemos muito bem quem é Aquele em quem temos acreditado e depositado nossa fé e nossas esperanças. Todos nós temos muitas histórias para contar. Não desconhecemos o poder do Senhor e sabemos quais são os limites das tribulações. Venceremos. Faremos a travessia. Chegará a hora que, sem harpas penduradas em salgueiros, cantaremos como fizeram Miriã e as mulheres: cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou, e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro (Êxodo 15.20,21). Alegrai- -vos, chegará a hora. Atravessaremos o vale da sombra da morte. Estamos sendo e seremos protegidos pelo Altíssimo. Fizemos e fazemos coisas socialmente erradas, a pandemia é uma consequência daquilo que optamos por não fazer e pagamos, como espécie humana, um alto preço. Devemos amar ao próximo e não ignorá-lo. Não podemos clamar o nome do Senhor em vão, como fazem fariseus heréticos do presente. A fé é mãe das virtudes, mas o vírus é proveta de malfeitos.

Rastros da pandemia deixam sinais nesse sentido: temos pessoas dedicadíssimas na área da saúde, acolhimento em igrejas, solidariedade para quem necessita de apoio, afeto e orações; carinho para pessoas carentes; oferta de bálsamos espirituais para quem vive momentos de sofrimento. Por outro lado, temos picaretas, vigaristas, estelionatários e canalhas exploradores. Ter fé não significa ser bobo ou ingênuo. Ter fé significa, isto sim, consciência - lampejo divino - de ter recebido o sopro da vida. A alma nutrida pelas bem-aventuranças. Tudo vai passar. A palavra do Senhor, 1 Pedro 1.25, permanecerá para sempre.


Percival de Souza