Voz Missionária

Máscaras de nossa existência - com o rosto coberto

E não somos como Moisés, que punha um véu sobre o rosto, para que os filhos de Israel não pudessem fixar os olhos no fim daquilo que estava desaparecendo – 2 Coríntios 2.13.


Em tempos de pandemia, temos nos defrontado com um fenômeno novo. Nos relacionamos com os demais usando máscara. Um humorista brincava com isso e dizia que era a primeira vez que alguém entrava em um banco usando máscara e era cumprimentado pelo segurança. A máscara trouxe mudanças de comportamento mas, ao mesmo tempo, exacerbou posturas contraditórias. Por isso, refletir as posturas a partir da fé é um desafio para todos nós. Moisés é personagem chave tanto no Primeiro Testamento (nosso Antigo Testamento), como no Novo Testamento. Jesus é o novo Moisés para o evangelho de Mateus e, ao mesmo tempo, objeto de crítica para o apóstolo Paulo. Esses pontos de vista diferentes nos ajudam a refletir sobre o rosto coberto, rosto descoberto e a vida da fé.


1. Moisés – o rosto coberto e a proteção do outro
Quando lemos Êxodo 34.29-35, vemos que quando Moisés subia ao monte para falar com Deus, ao voltar sua pele brilhava e o povo ficou apavorado. Moisés chamou o povo, falou com eles e cobriu o rosto com um véu. A lógica desse texto é que Moisés faz isso com a finalidade de proteger e acalmar os outros. Precisamos nos lembrar que na cultura semita era indigno um homem cobrir o rosto com véu. Cobrir a cabeça ou o rosto em muitas culturas que cercavam o povo de Deus era uma prática das mulheres. Ou seja, Moisés assume uma prática que não é considerada digna para proteger o povo. Tirar o medo, acalmar o povo é tão prioritário que Moisés assume essa prática indigna e preserva o outro.


2. Paulo e Moisés – o rosto coberto para esconder a transitoriedade
Esse mesmo evento tem uma leitura negativa por parte de Paulo. Aqui é importante destacar que Paulo não está criticando diretamente Moisés. O alvo da crítica dele são os seguidores da Lei que têm em Moisés o grande líder a ser seguido. Esses, em nome de Moisés criam um modelo de vida que os coloca acima de todos os demais. Por isso, no argumento de Paulo, Moisés se torna uma metáfora daqueles que são legalistas (como Paulo havia sido). Nessa perspectiva a leitura que Paulo faz torna-se uma crítica ao uso do véu como recurso para esconder as falha e os limites para se apresentar como melhor que os demais. O brilho de Moisés desvanecia. Por isso, precisava usar o véu para não mostrar para o povo esse limite, essa perda de glória. Os legalistas, para esconder o desvanecer da glória deles, usavam a lei de Moisés para colocarem-se acima dos demais


3. Máscaras que ficam, máscaras que caem
Quando avaliamos essas duas perspectivas, acabamos por perceber que a máscara traz um desafio profundo para a ética cristã.

a) tempos de pandemia e a importância do outro: choca quando ouvimos nas ruas e, inclusive, entre os cristãos e cristãs, falas que em nome do interesse pessoal, do conforto ou até da arrogância religiosa de se achar, por causa da fé, imune a qualquer doença. Defendem o não uso de máscaras e assumem posturas de enfrentamento a essa determinação. A saúde do outro/a é fundamental. A vida do outro não pode ser posta em risco pelo desejo individual. Na fé cristã, seguir o mestre que lavou os pés dos discípulos e afirmou que o maior é aquele que serve, as opções individuais necessitam ser colocadas em segundo plano, priorizando o cuidado com a vida do outro e da outra.

b) Em tempos de pandemia, a importância de tirar as máscaras: ao mesmo tempo que somos desafiados e desafiadas a usar as máscaras que protegem a vida, que testemunham que seguimos o mestre e nos colocamos a serviço daqueles que estão ao nosso redor e são alvos da graça e do amor de Deus, somos também desafiados e desafiadas a tirar as máscaras que criam barreiras de comunhão, que promovem o egoísmo, que escondem nossas limitações e, consequentemente, nossa dependência da graça de Deus. Máscaras de desamor, de arrogância, de ódio, de violência. Essas, precisam deixar de ser usadas.


É tempo de buscar a orientação de Deus para usarmos as máscaras que promovam a vida e testemunham nosso seguimento de Jesus e abandonar todas as máscaras que atentam contra a vida e contra o testemunho de fé. Que tenhamos discernimento para essa prática


Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia