Voz Missionária

Suicídio: assunto velado e necessário

Quando chega o mês de setembro, vemos uma movimentação da cor amarela nas ruas e nas redes sociais. O que muitos não sabem é o motivo de a cor escolhida ser essa e da memória que há por trás dela. A origem vem da história de Mike Emme, Estados Unidos, que era apaixonado por seu Mustang 68, que ele mesmo restaurou e pintou de amarelo, antes mesmo de ter idade para dirigir. O jovem, com 17 anos na época (1994), era caracterizado por sua família e amigos como uma pessoa carinhosa e generosa. Em 8 de setembro daquele ano, Mike cometeu suicídio, sem que qualquer pessoa tivesse percepção dos sinais antes do ato. Durante o funeral, foram distribuídos cartões e fitas amarelas com o dizer: “Se precisar, peça ajuda”. A partir deste ato, foi criada uma fundação chamada Yellow Ribbon (fita amarela), que tinha por objetivo de prevenir o suicídio. Diante da repercussão, outros países também utilizaram a ideia.

Em 2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu o dia 10 de setembro como Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio. A fita amarela (assim como a cor do Mustang) foi escolhida para simbolizar essa campanha que, no Brasil, teve início em 2014 com a iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), e foi intitulada como Setembro Amarelo.

Falar sobre suicídio ainda é considerado um tabu, pois por muito tempo (e talvez ainda seja) foi considerado um pecado, por vezes o pior deles. Temos visões fragmentadas, que são alimentadas boa parte pela ignorância e também pelo preconceito em relação ao tema.

Para que a prevenção seja bem sucedida é necessário lutar contra o véu assustador que insistimos em colocar sobre esse assunto. Os índices nos mostram uma realidade grave. O suicídio é um assunto de saúde pública no Brasil e no mundo.

Um suicida é, antes de qualquer característica que lhe é atribuída, uma pessoa que se encontra em estado de fragilidade emocional, com distorção da percepção da realidade, com avaliação negativa de si e do mundo, com sentimentos ambivalentes, que permeiam o viver e o morrer, em uma condição que, a seu ver, é interminável (sem fim), inescapável (sem saída) e intolerável (não consegue suportar).

Como em vários momentos da vida, passamos por um processo, assim acontece com o suicídio: há fatores que antecedem, e precisamos falar sobre ele. Primeiramente, o ser humano precisa ser reconhecido em sua totalidade como um ser biopsicossocial e espiritual: Biológico
refere-se a nossa composição genética, o sistema nervoso, imunológico e endócrino.

Psicológico
constitui-se no sentir, pensar, no comportamento, na atribuição de sentidos e nas emoções. Percepção do mundo à sua volta.

Social
sua esfera social absorve os ensinamentos e valores da cultura em que está inserido. Troca de experiências.

Espiritual
criatividade, fé, imaginação, busca pelo sentido da vida, a possibilidade de transcender a si mesmo.

Estes aspectos integram entre si a constituição de Ser (movimento existencial) no mundo. Dito isto, sobre uma pessoa que se encontra adoecida, há de se dizer que ela se encontra em desarmonização como um todo em sua complexidade e que não encontra recursos biopsicossociais para seguir em frente.

Tendo em vista a subjetividade de cada ser, os sintomas podem acontecer em intensidades diversas. “90% dos casos de suicídio estão associados a transtornos mentais, que se fossem corretamente diagnosticados e adequadamente tratados, evitariam um número significativo de perdas vitais” (SILVA, 2016, p. 245). Um dos fatores de risco mais associados à prática de suicídio é a depressão, e identificá- -la é o primeiro passo.

O corpo padece com alterações do apetite, do sono, da energia e da capacidade imunológica; a mente é tomada por pensamentos negativos de culpa e incapacidade; e o espírito aprofunda na escuridão do vazio, do desamor e da ausência de propósito existencial. Nenhuma outra doença é capaz de suscitar tantos questionamentos sobre a condição humana (SILVA, 2016, p. 273.)

É natural que em diversas circunstâncias se tenha o pensamento de desistir, de ausência de base e valores sólidos, de considerar que não sairá daquela situação. O processo se agrava quando esse pensamento se torna recorrente, tornando-o uma ideação e/ou planejamento, dando sequência à ação.

Há diferenças sutis, mas importantes entre querer estar morto, querer morrer e querer se matar. A maioria das pessoas tem, de tempos em tempos, o desejo de estar morto, anulado, além da dor. Na depressão, muitos querem morrer (...) para se libertar das aflições da consciência. Querer se matar – suicídio (...) não é resultado da passividade; é o resultado de uma ação (...) com pelo menos um toque de impulsividade. (SALOMON, 2014, p. 233)

Segundo o autor Andrew Salomon (2018, p. 44), referência no tema sobre depressão: “O suicídio pode ser uma solução permanente para um problema temporário, mas é uma solução que acena com um crescente poder de sedução”. Partindo desta ideia, em hipótese alguma se deve esperar uma diminuição espontânea dos sintomas para que se busque ajuda especializada. Há de se considerar que, neste momento, há uma delicada relação entre a comunicação consigo e com o outro. Tudo é comunicação, porém, muitos não conseguem pedir ajuda por acharem que serão considerados fracos ou covardes: “Winnicott1 afirma que o morrer é parte da saúde, parte do processo maturacional. Mas só pode morrer quem existiu, e existir é acontecer e agir no mundo humano” (SAFRA, 2005, p.166). O suicídio é um tabu porque ainda nos sentimos desconfortáveis ao falarmos sobre a morte.

Vivemos em uma sociedade que propõe uma busca por felicidade constante e inexistente: “Meu Deus, faz com que eu viva o momento de minha morte” (WINNICOTT, 1989), ou seja, que todos nós estejamos inteiros e presentes em nosso momento de morte (experiência da vida), que criemos, simbolizemos e vivamos a vida, de maneira a suportar a realidade. O suicídio possivelmente seja a última tentativa de controle da própria vida, de senti-la, e não cabe a nós, como sociedade, julgar a veracidade dos pensamentos e emoções envolvidos.

Não existe um “remédio” perfeito para que se volte a ter sentido na vida, mas é necessário que limpemos nossa mente de alguns preconceitos, pois muitas pessoas, ao serem ouvidas e acolhidas em momentos de intensa angústia e desespero, conseguem acalmar seus dolorosos sentimentos e perceber sua vida sob novos ângulos (SILVA, 2016, p. 245).

Dito isso, como, então, criar meios de prevenção à prática do suicídio?

É complexo alavancar prevenções em algo que está atrelado ao campo da subjetividade. Às vezes, por razões diversas, nos fogem os sinais. Entretanto, maneiras simples e práticas no dia a dia podem nos auxiliar e auxiliar aos outros/as, tais como boas noites de sono, atividades físicas, tempo para lazer... Outras possibilidades se dão no incentivo à procura do Centro de Valorização da Vida (CVV)2 e no processo de psicoterapia, nos quais o acompanhamento de um profissional é de primordial necessidade nas superações de crises.

Ao falar sobre suicídio, estamos falando sobre valorização da vida. Se não falarmos, conversarmos ou expusermos essa realidade, nos omitimos diante de uma realidade que, talvez não nos atinja especificamente, mas que é a realidade de muitas pessoas, muitas famílias.

No campo da vida, a omissão é tão grave quanto a ação, é necessário se desprender do tabu em que está atrelado esse assunto de suma importância. Sabemos uma fração quase insignificante sobre nós mesmos, o que vemos e observamos pode ser pouco, mas nenhuma informação ou conhecimento é em vão, muito pelo contrário, pode acolher uma vida.

Samara Santos
Psicóloga Psicoterapeuta