Voz Missionária

Até quando, Senhor

As horas para o final de uma cirurgia, os dias para o fechamento de um diagnóstico, o tempo indeterminado de uma UTI, a expectativa dura pela intubação e extubação. Termos que a gente nem usava no dia a dia e agora conhece e usa com frequência. As situações que descrevi na primeira frase foram especialmente trazidas pela pandemia e se instalaram na nossa vida de um modo avassalador. Acredito que passaremos um tempo significativo vivendo os efeitos e tomando consciência do quanto tudo isso abalou profundamente as estruturas da nossa vida, não apenas do ponto de vista econômico, social ou afetivo, não apenas pelo luto sobre as vidas perdidas (meu Deus, e isso já é tanto!). Eu imagino que há muita coisa dentro de nós e entre nós que a pandemia não mostrou simplesmente. Ela escancarou, de fato.

Recentemente, numa reunião pastoral, um dos presentes declarou que a pandemia nos roubou das distrações do ativismo. Sem as ferramentas que nos ajudavam a parecer pessoas ocupadas e produtivas, ficamos a mercê de frustrações profundas, temores generalizados, ameaças externas e internas, fragilidades emocionais e espirituais. Nem mesmo os recursos comuns da oração e do jejum nos consolaram. Imaginamos, infantilmente, que jejuar e orar por alguns dias em favor de causas justíssimas, mas sem um arrependimento muito profundo e uma tomada de posição definitiva diante de Deus como igreja (porque jejum e oração é pra gente convertida e não pode ser imposta por decreto ou força), resolveria e talvez nós tornássemos, do dia pra noite, os novos heróis e heroínas, puxando, quem sabe, a glória de Deus para nós.

Na pandemia, eu me arrependi. Eu me arrependi da minha arrogância e prepotência por achar equivocadamente que eu era dona do meu tempo. Eu me arrependi da agenda lotada que me impediu de ver pessoas importantes na minha vida, porque agora já quis ir e não pude. Eu me arrependi da procrastinação não do trabalho, mas das férias há tanto pedidas pelas filhas. Eu me arrependi de alguns sermões, que agora julgo superficiais e diversionistas diante da dureza da realidade de muita gente. Eu me arrependi da palavra do evangelho que não entreguei esperando a melhor oportunidade. Também me arrependi de não ser mais incisiva em coisas que não poderia ter deixado passar, porque agora para algumas pessoas a volta vai ser bem, bem longa. Para outras, talvez não.



Quero escrever este texto tendo em mente que muitas pessoas podem estar clamando: Até quando, Senhor? Porque estão sofrendo, perdendo tudo, com fome e sede de comida e de Deus, sem expectativas nem perspectivas neste final de ano. Quero ter em mente que Jesus me desafia a ser parte da resposta a esta pergunta


Eu me arrependi de tudo isso e muito mais porque, como o salmista, eu estava relutando dentro de mim mas não estava admitindo isso. Como muita gente, eu imagino, estou reconstruindo com Deus e no contexto dessa pandemia, meu conceito de esperança.

Quero escrever este texto tendo em mente que muitas pessoas podem estar clamando: Até quando, Senhor? Porque estão sofrendo, perdendo tudo, com fome e sede de comida e de Deus, sem expectativas nem perspectivas neste final de ano. Quero ter em mente que Jesus me desafia a ser parte da resposta a esta pergunta.

O salmista pede algumas coisas essenciais para ele e que também o são para mim:
Que meus olhos sejam iluminados e que eu não durma o sono da morte. Isso me fala do jeito de ver a vida, que não se limita pelas circunstâncias e não permite decisões tomadas na penumbra da tristeza, da incredulidade, do ressentimento ou cegueira espiritual. Decisões tomadas assim geram morte e na morte não há esperança. Devo ter os olhos (a capacidade de discernir) sob a luz da presença e da misericórdia divinas. Que eu não venha a vacilar e meu inimigo pense que triunfou sobre mim: sabemos que nosso maior inimigo é Satanás. Nosso vacilo não é apenas um risco à nossa sobrevivência e salvação pessoais. Ele também é uma afronta a Deus, entende o salmista. Minha vitória sobre meus inimigos é um testemunho da fidelidade do Senhor. E no tempo da dificuldade, minha parte nessa vitória é a resistência à desistência.

O que quero hoje é que ante o arrependimento que senti e sinto me seja dada a oportunidade de mostrar os frutos. Que eu me anime no Senhor e me reinvente na esperança que vem Dele. Que eu confie na graça de Deus. Que eu confie como o salmista, fazendo promessas de canções. Que eu vá do “Até quando, Senhor?” para o “Sabia que você vinha, ainda bem que esperei!”.


Bispa Hideide Brito Torres
Oitava Região Eclesiástica
DF, MT, GO e TO