Voz Missionária

Um ninho para dois

O filme conta sobre a dificuldade de um casal para enfrentar uma grande tragédia e a força de uma mulher na luta para superar o luto. No início, vemos o casal cheio de sonhos, preparando a casa para a chegada da criança e, de repente, a situação muda completamente porque acontece uma tragédia. Entra em cena a forma como cada ser humano reage à dor.

O marido de Lilly entra numa depressão muito forte e precisa ficar internado em uma clínica psiquiátrica. Ele é professor de artes para crianças pequenas. Como retomar sua profissão sem lembrar-se de sua filha? Parece que ele entrega os pontos, enquanto ela fica sozinha em casa com suas lembranças, suas dores, seu trabalho: ela é estoquista em um supermercado e ainda precisa visitar o esposo semanalmente para perceber que não há uma evolução no seu quadro. Ele fechou-se em uma concha.

Lilly, a esposa, tem grandes problemas para entender a perda, lidar com o próprio sentimento de culpa e ainda enfrentar a apatia do esposo. A psicóloga da clínica, onde seu esposo está internado, com pena de Lilly, indica para ela, um amigo que seria um excelente profissional. Ao procurar por ele, Lilly descobre que ele agora se dedica a cuidar de animais. Trata-se de alguém que abandonou a profissão e busca uma compensação cuidando de animais. Eventualmente, ele até pode dar conselhos durante a consulta do animal.

Como se os problemas da protagonista não fossem suficientes, um estorninho faz um ninho no quintal de Lilly, e começa a atacar Lilly, levando-a a buscar ajuda. Lilly fica obcecada em matar o pássaro, mas eventualmente encontra bons conselhos com Larry, o psiquiatra que virou veterinário. Os dois personagens formam uma amizade única e pouco convencional, e essa relação ajuda cada um deles a confrontar os próprios problemas e lidar com os erros e traumas.

O filme trata fortemente o inconformismo de quem vive a situação antinatural da morte de um filho antes dos pais, ainda mais na primeira idade. Como manter o relacionamento em meio a uma crise tão forte. Afinal, as lembranças estarão presentes nas mentes e nos corações.

Quando entra em cena starling, o pássaro que dá nome ao filme, Lilly vai iniciando um tempo de reação e superação. E, depois, ela descobre que o pássaro está colocando em prática seu instinto animal de proteção da prole: fazendo um ninho na árvore localizada no quintal da casa de Lilly e Jack.
O filme tem uma leveza porque mistura comédia e drama, embora esteja mais para drama. O roteiro foi criado por Matt Harris como forma de contar uma trama de esperança e sofreu modificações pelo diretor Theodore Melfi. Uma delas foi dar voz à personagem feminina.

Pontos para reflexão

1. Como reagimos à dor. Cada pessoa reage de forma diferente à dor. Algumas pessoas choram, reclamam, expressam sua dor; outras se fecham em seu mundo – como o esposo de Lilly. Jack passou a viver em um universo diferenciado e a apatia é sua grande tônica. Algumas pessoas se tornam fortes na dor, outras se mostram completamente sem forças, sem ânimo, como o caso do esposo de Lilly. Não podemos querer que todas as pessoas reajam da mesma forma. Precisamos respeitar a individualidade de cada um e dar a cada pessoa o tempo necessário para superar a dor e a reencontrar forças para a vida e enfrentar a situação de dor.

2. A dificuldade em libertar-se das bagagens da vida. Aquele casal acumulou todas as coisas de uma criança: a casa e o quartinho estavam intactos. Um belo dia, Lilly, que vivia sua solidão, tomou a decisão de libertar-se de todas as coisas que pertenciam à sua filhinha. Colocou tudo à venda na frente de sua casa. Um casal comprou todas as coisas, outras ela doou. A alegria do casal, cuja mulher estava grávida é contagiante. Enquanto ela estava acumulando aquelas coisas a sua dor não diminuía. A partir desta ação, ela entra em um processo de libertação. O apóstolo Paulo afirma: “esquece das coisas que ficam para trás e avança na direção das coisas que estão à sua frente” (Filipenses 3.13,14). Na caminhada da vida, devemos olhar para frente, mas, muitas vezes, é difícil abrir mão do passado, das dores, das frustrações. O poeta Carlos Drummond de Andrade tem uma poesia sobre a faxina da alma, onde ele coloca a necessidade de jogarmos fora tudo que nos prende ao passado e a um mundo de coisas tristes. Ao longo da vida, vamos acumulando uma grande bagagem e precisamos libertar-nos para continuar a jornada.

3. O passo seguinte. Continuando a faxina. Após a faxina que Lilly fez na casa, ela ficou pronta para outra etapa: cuidar da sua casa, tirar aquele ar de casa abandonada. Ela libertou-se do que a prendia ao passado, mas ela não estava vivendo o presente porque não estava cuidando da sua casa. Sozinha, com uma força descomunal, ela realiza uma grande faxina e, depois, vai para o jardim. Muito mato cresceu; ela decide plantar uma horta. Sua necessidade de realizar é tão grande que ela resolve fazer tudo sozinha. Depois, ela conta com a ajuda de um rapaz na missão de cuidar do jardim.

4. A importância das pessoas. Não tem como assistir esse filme e não sentir compaixão por Lilly, que não assume uma postura de coitada diante da vida. Pelo contrário, demonstra uma força muito grande. Vemos a importância de pessoas que nos ouvem, veem e se interessem pela nossa história. No seu trabalho, Lilly encontra a compaixão do chefe e dos colegas de trabalho. Na clínica, a psicóloga olha para a sua dor, sua tentativa de ajudar o esposo e resolve ajudá-la indicando o psiquiatra – com o qual ela já tinha trabalhado. E, por fim, o próprio psiquiatra que, ao cuidar do pássaro, interessa-se por Lilly, sua dor e sua ajuda é fundamental para que ela reencontre seu equilíbrio emocional. Nós não podemos viver sozinhos e isolados. Muitas vezes, na caminhada, faltará forças, ânimo, alento. Se tivermos pessoas amigas ao nosso lado, será mais fácil dividir a carga e encontrarmos saídas.

5. A dimensão da fé. Ao ver aquela mulher lutando sozinha, descobrimos a importância da dimensão da fé. Quando vivemos a dimensão da fé, descobrimos que não estamos sozinhas e entregues à nossa própria sorte. Temos um Deus que caminha ao nosso lado e nos concede forças. Coloca-se ao nosso lado e nos toma pela mão e, se alguns momentos, a caminhada se mostrar difícil, Ele é tão misericordioso que nos carrega no colo. A dimensão da fé nos remete a uma comunidade. Ela não estaria tão só e tão entregue aos seus pensamentos, seus medos e anseios. Em algumas cenas, a gente sente uma tristeza ao ver sua solidão. Tudo teria sido mais fácil se Lilly vivesse a dimensão da fé.

Existem muitos outros pontos para refletir.
Bom filme!


Amélia Tavares C. Neves